terça-feira, 8 de setembro de 2009

Por amor à Virtude não por Medo ao Inferno



Ontem à tarde, eu estava encostado ao sofá, na sala escura, com a televisão desligada, e o computador a passar o The Wall dos Pink Floyd. Nas minhas mãos vivia um livro, de que há muito ouço falar, especialmente mal. "É uma seca! É isto, é aquilo!". Obviamente eu sabia que assim não era, porque quem o disse tinha pinta de achar o Crepúsculo uma excelente obra literária. Mas ainda assim, tinha algum medo, porque o livro se afigurava pesado, eternamente pesado.

Comecei a ler. E zás, desapareceram as primeiras 20 páginas. "Afinal não deve custar assim tanto!". Li mais um bocado, e já tinham ido 50. De forma que ontem à tarde estava em casa a ler, ou melhor, a devorar o livro. O livro que aparentava ser pesado, oh eternamente pesado, era na verdade muito leve, como uma pena, como uma pequena partícula de ar. Como as aparências enganam! Não eram tanto as 600 e tal páginas, mas mais o prestígio que o Eça tinha. Sempre pensei que fosse um escritor cuidado, que fizesse grandes e imensas descrições, mas afinal é bastante simples, leve, no que à narração diz respeito. Peso que aumenta com o verdadeiro conteúdo. É uma verdadeira obra de arte, pelo menos o início.

Sim, eu estou a ler Os Maias, até porque toda a gente tem, ou pelo menos deve ler, Os Maias. Isto posiciona-me numa facha etária que eu não havia ainda revelado, por ter medo que isso me descridibilizasse. Eu sou mais que o tempo que vivi. Sou os sonhos que tive, as coisas que fiz, as músicas que ouvi, os livros que li, o ar que respirei, as pessoas que conheci,... Definitivamente sou muito mais que os meus 16 anos! Mas não posso deixar de ter o receio de passar a ser visto como um miúdo, porque, em certa medida, até o sou. Se calhar é esse medo que faz de mim um miúdo, mas pronto, isso são pormenores.

Estava a ler Os Maias, quando, a certa altura me deparo com uma passagem belíssima:

"- Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer, por ser um pecado que ofende a Deus, já ele save que se não deve praticar, porque é indigno de um cavalheiro e de um homem de bem...
- Mas, meu senhor...
-Ouça, Abade. Toda a diferença é essa.Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por medo às caldeiras de Pêro Botelho , nem com o engodo de ir para o Reino do Céu..."

Isto resume o que eu penso sobre isto! E deveríamos todos ser assim...



PS:. O The Wall dá uma bela banda-sonora.

1 comentário:

Austeriana disse...

"Os Maias" é uma obra fantástica. O número de páginas pode assustar, mas lê-se de uma assentada. Boa leitura!