o que é a alma? a alma é um peixe com asas, uma epidemia, um poste nº13, um extintor nº13, uma bicicleta, uma passadeira, uma descida, uma rua, uma padaria, um restaurante italiano, uma palavra, uma música, uma decisão, um erro, um desastre, um furo na alma e tudo igual, tudo resto de um passado que nunca chegou a ser.
a alma não é mais que uma construção do intelecto, para disfarçar a enorme inutilidade e falta de valor do ser humano. a alma é uma manifestação do seu ego. porque nós somos importantes. chamamos alma ao sistema central que nos tenta manter vivos. é uma maldição. uma prodigiosa maldição.
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sábado, 19 de março de 2011
quinta-feira, 3 de março de 2011
pertencer ao que não pertence mais ninguém
pertencer é uma das mais básicas condições humanas. uma daquelas necessidades que nos influenciam de tal forma que chegamos mesmo a abdicar das nossas mais profundas crenças. no filme Human Nature de Charlie Kaufman uma das protagonistas abandona a sua natureza selvagem, tornando-se mesmo ajudante de um laboratório, por amor. o amor é essa manifestação máxima da necessidade de determinada pessoa. mas nem sempre precisamos de uma só pessoa. às vezes é respeito, outras reconhecimento, outras carinho, outras simples olhares, mas essa necessidade de contacto é das que mais se manifesta. e arrisco-me a dizer que se manifesta em todos os seres humanos.
para pertencer é necessário abdicar-se da identidade. é um estorvo à comunicação muito grande. opiniões fortes, posições vincadas, pouca tolerância. é isso que faz a identidade e é isso que desfaz as relações interpessoais. noutro filme de Kaufman, Being John Malkovich, vemos como uma personagem assume a identidade de Malko de forma a poder enamorar-se com a mulher por quem estava obcecado. nem todas as as relações humanas precisam de abdicação. mas quando as pessoas são mais duras, mais autênticas, torna-se complicado estabelecer-se um diálogo.
a massa, esse ser enorme do qual nós somos pequenas células, precisa que nós deixemos de ser nós. a existência não faz qualquer tipo de sentido, pelo menos a nossa. pode fazer, se formos nós próprios. mas aí, estamos a destruir-nos, a lançar-nos ao vácuo da velha e miserável solidão.
para pertencer é necessário abdicar-se da identidade. é um estorvo à comunicação muito grande. opiniões fortes, posições vincadas, pouca tolerância. é isso que faz a identidade e é isso que desfaz as relações interpessoais. noutro filme de Kaufman, Being John Malkovich, vemos como uma personagem assume a identidade de Malko de forma a poder enamorar-se com a mulher por quem estava obcecado. nem todas as as relações humanas precisam de abdicação. mas quando as pessoas são mais duras, mais autênticas, torna-se complicado estabelecer-se um diálogo.
a massa, esse ser enorme do qual nós somos pequenas células, precisa que nós deixemos de ser nós. a existência não faz qualquer tipo de sentido, pelo menos a nossa. pode fazer, se formos nós próprios. mas aí, estamos a destruir-nos, a lançar-nos ao vácuo da velha e miserável solidão.
é como quem diz:
Charlie Kaufman,
reflexão,
sociedade,
vida
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
egipto sem p
o que se está a passar no egipto é importantíssimo, não só para áfrica, como também para nós, ocidentais. é o futuro de toda uma civilização global que está em jogo. não tenho muito bem a certeza, sou muito novo, mas parece-me que este é o primeiro movimento de revoltas genuinamente popular a acontecer numa aldeia global e num país não ocidental.
de uma forma lacónica, este processo que começou na tunísia, julgo, pode ter dois resultados: a chegada da verdadeira democracia a áfrica, que com todos os seus defeitos é mil vezes melhor que as ditaduras impostas; ou a imposição de regimes ainda mais autoritários. independentemente do que isso significa para o egipto, para nós ocidentais isto pode valer como incentivo ao protesto ou, por outro lado, levar ao medo, porque afinal de contas as revoluções ainda que feitas por populares, não vão de encontro à vontade geral, tendo muitas vezes consequências nefastas como sangue, feridas, fracturas, infecções, miséria, violência.
o egipto, que há muito havia perdido o poder (o popular), decidiu revoltar-se e mostrar que um cidadão pode não mandar nada, mas que só no cairo há 20 milhões e que esses sim são o egipto, esquecendo os exércitos, governantes, fronteiras. os países são as pessoas, os povos, as culturas. e uma revolução por semana dava jeito para não nos esquecermos disso.
de uma forma lacónica, este processo que começou na tunísia, julgo, pode ter dois resultados: a chegada da verdadeira democracia a áfrica, que com todos os seus defeitos é mil vezes melhor que as ditaduras impostas; ou a imposição de regimes ainda mais autoritários. independentemente do que isso significa para o egipto, para nós ocidentais isto pode valer como incentivo ao protesto ou, por outro lado, levar ao medo, porque afinal de contas as revoluções ainda que feitas por populares, não vão de encontro à vontade geral, tendo muitas vezes consequências nefastas como sangue, feridas, fracturas, infecções, miséria, violência.
o egipto, que há muito havia perdido o poder (o popular), decidiu revoltar-se e mostrar que um cidadão pode não mandar nada, mas que só no cairo há 20 milhões e que esses sim são o egipto, esquecendo os exércitos, governantes, fronteiras. os países são as pessoas, os povos, as culturas. e uma revolução por semana dava jeito para não nos esquecermos disso.
domingo, 30 de janeiro de 2011
a efemeridade das pequenas eternidades
não existe nada mais breve que os momentos que ficam para sempre. um sorriso, um cumprimento, um toque, um nome, um olá. tudo isso não se esquece nunca. uma expressão facial, uma música, um sentimento, um filme, um concerto, um livro. são coisas que tão depressa começam, como depois teimam em não desaparecer nunca. em oposição temos as demoradas filas de trânsito, as longas horas de trabalho, os complexos processos burocráticos, que, uma vez terminados, desaparecem num instante, apagados da memória de longa duração que dirige o homem ao céu ou ao fundo da terra, conforme pecou muito ou não, ou conforme tem mais que fazer do que acreditar em seres superiores. a memória é selectiva. por vezes tortuosamente selectiva. creio que nunca deixarei de dizer aquele nome, mesmo na ausência da sua legítima proprietária.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
obsessão
obsessão é efeito boomerang. é algo que temos dentro de nós que vai e vem, não nos deixando. algo que marca a nossa existência, marca os nossos actos, por ser o caminho que nos aparece pela frente para seguirmos ou não. é uma insensatez segui-lo. é o caminho do sofrimento e da perturbação mental. assim como a insensatez do jobim é obsessiva, eu sou obsessivo: por ela por música, por vida. a vida é obsessiva. só as coisas neutras não provocam obsessões.
como uma música tocada em repeat, a obsessão é o desejo de criar um circulo, uma linha que nos salve do efémero, que nos granjeie eternidade. a obsessão é o medo da morte e o medo da vida. é uma fuga de sofrimento e dor, que nos parece guiar a algum lado, limitando-nos a passear num carrossel . no fundo todo o esforço é inútil, a sobrevivência é inútil, a vida é inútil. não só as artes. tudo é inútil, a partir do momento em que temos uma escolha que nega tudo, fazendo com que nada exista. nada que seja susceptível de não existir é útil, tudo é inútil. é a obsessão que nos faz seguir por entre o inútil. também ela é inútil. tudo é inútil. cada um cria para si os seus universos de inutilidade. a liberdade é isso.
e a obsessão não a limita. é lhe indiferente. a obsessão sou eu. a obsessão é isto em repeat:
é como quem diz:
jobim,
noite fora,
reflexão
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
O Post que fala, sem querer falar, da vida e do que ela é, utilizando diferentes conceitos que se unem de uma forma absolutamente inútil

montagem original utilizando imagens do google images, que devem ser de alguém, mas na altura não anotei e agora sei lá
Está na altura de dizer algo sério e a sério. Até vou utilizar maiúscula para atingir tal efeito. É necessário, neste preciso momento, que consiga dizer algo que me transcenda, a fim de não me perder num desses desertos de sei lá o que são, ou vidas, ou chamem-lhe o que quiserem, eu cá sei lá, que já me perdi.
A vida é... Podia cantar a música da série infantil A Vida é... Poderia escrever sobre a vida, em longos traços descritivos, com bonitas metáforas e uma alegoria capaz de fazer qualquer escritor de telenovelas aguar. Não vou dizer nada sobre a vida, que nem sei o que é, se é tudo, se é só o que é considerado parte da Biosfera, se tais e suas vivências. Por vezes descarregamos na vida que, coitada, preferia nunca ter sido criada enquanto conceito.
A transcendência, o eruditismo da linguagem é atingido, não por tão negras e escorregadias lajes orientadores de um qualquer caminho, mas pela exploração de diferentes temas, de preferência de uma forma vaga, informada e completamente aleatória. Como um homenzinho de mapa e bússola na mão, ignorando que é cego. Talvez a transcendência não se atinja, talvez seja ela que nos atinge a nós, como um trovão no meio de uma dança no Carnaval.
Eu que queria falar a sério, não disse nada, nem sequer me aproximei de o fazer. Este é dos posts mais inúteis que já escrevi, demonstrando nada mais que a falta de inspiração ou a falta de vontade de falar sobre o que quer que seja, fenómeno que não se verificava dantes, no antigamente que foi o ano passado e outros anteriores. A inutilidade é a arte de ser. A vida é inútil. E não podia ser mais transcendente
A vida é... Podia cantar a música da série infantil A Vida é... Poderia escrever sobre a vida, em longos traços descritivos, com bonitas metáforas e uma alegoria capaz de fazer qualquer escritor de telenovelas aguar. Não vou dizer nada sobre a vida, que nem sei o que é, se é tudo, se é só o que é considerado parte da Biosfera, se tais e suas vivências. Por vezes descarregamos na vida que, coitada, preferia nunca ter sido criada enquanto conceito.
A transcendência, o eruditismo da linguagem é atingido, não por tão negras e escorregadias lajes orientadores de um qualquer caminho, mas pela exploração de diferentes temas, de preferência de uma forma vaga, informada e completamente aleatória. Como um homenzinho de mapa e bússola na mão, ignorando que é cego. Talvez a transcendência não se atinja, talvez seja ela que nos atinge a nós, como um trovão no meio de uma dança no Carnaval.
Eu que queria falar a sério, não disse nada, nem sequer me aproximei de o fazer. Este é dos posts mais inúteis que já escrevi, demonstrando nada mais que a falta de inspiração ou a falta de vontade de falar sobre o que quer que seja, fenómeno que não se verificava dantes, no antigamente que foi o ano passado e outros anteriores. A inutilidade é a arte de ser. A vida é inútil. E não podia ser mais transcendente
terça-feira, 24 de agosto de 2010
o julgamento é errado e eu também sou
Não gosto de julgar ninguém. Faço-o muitas vezes. Demasiadas. Tenho pena de o fazer mas é algo inevitável, que surge das mais profundas e obscuras naturezas humanas, e das mais evidentes relações humanas. Toda a gente julga toda a gente, sem pensar em se julgar a si própria. Nem sequer é por isso que não gosto de julgar, mas só por si, parece-me um motivo admissível para fazermos um esforço.
Não gosto de julgar ninguém porque não sei o que se passa ao certo dentro da cabeça dos arguidos, e o que está por trás dele. Isto aplica-se especialmente a figuras públicas, sobre as quais mais não sei que pedaços de informação mais ou menos distorcida. Há por isso muitas lacunas, muitas falhas que não permitem julgar todo o conjunto da pessoa. Podemos, isso sim, julgar as acções das pessoas isoladamente, pois essas conhecemos, por vezes (convém sempre desconfiar da informação encontrada em livros e jornais).
Marylin Monroe, que muita boa gente vê como fútil e ignorante, é um excelente exemplo das falhas que podem resultar desses julgamentos. Ao que consta, para além de escrever poesia, lia, entre outros, Beckett e Joyce (Público). O julgamento que lhe é feito por algumas pessoas baseia-se unicamente na sua vida profissional, ignorando aquilo que a diva fazia por fora.
O homem é um ser limitado, tal como o são os seus julgamentos, daí não gostar de os fazer. Pena ser tão humano e natural.
Não gosto de julgar ninguém porque não sei o que se passa ao certo dentro da cabeça dos arguidos, e o que está por trás dele. Isto aplica-se especialmente a figuras públicas, sobre as quais mais não sei que pedaços de informação mais ou menos distorcida. Há por isso muitas lacunas, muitas falhas que não permitem julgar todo o conjunto da pessoa. Podemos, isso sim, julgar as acções das pessoas isoladamente, pois essas conhecemos, por vezes (convém sempre desconfiar da informação encontrada em livros e jornais).
Marylin Monroe, que muita boa gente vê como fútil e ignorante, é um excelente exemplo das falhas que podem resultar desses julgamentos. Ao que consta, para além de escrever poesia, lia, entre outros, Beckett e Joyce (Público). O julgamento que lhe é feito por algumas pessoas baseia-se unicamente na sua vida profissional, ignorando aquilo que a diva fazia por fora.
O homem é um ser limitado, tal como o são os seus julgamentos, daí não gostar de os fazer. Pena ser tão humano e natural.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Redundância
Somos sempre os mesmos, por mais que sejamos pessoas diferentes. Conservamos a memória, a linha de identidade que nos faz responsáveis pelo passado, responsáveis pelo futuro e presente, e merecedores de todos os louros em caso de resultados positivos. Somos sempre culpados, porque tudo muda à nossa volta mas nós não. É curioso como sem ninguém deixar de ser quem é tudo muda.
Por isso recaímos tantas vezes nas mesmas falhas, nos mesmos erros. Somos sempre nós, de uma forma por vezes irritante. Sádica forma de dizer "à quanto tempo!" depararmo-nos com algo que já fomos, e que apesar de numa forma não activa, ainda somos. Eu arriscaria dizer que somos redundantes. Buscamos sempre a mesma coisa, ainda que por caminhos diferentes em diferentes épocas.
Não me vou perder a discorrer em linhas o deprimente e aborrecido que é ter o nós, o futuro, passado e presente, às costas. Vou gastar apenas uma frase: não é triste ter de escolher por um nós, em detrimento de um outro, que no fundo busca a mesma coisa?
Por isso recaímos tantas vezes nas mesmas falhas, nos mesmos erros. Somos sempre nós, de uma forma por vezes irritante. Sádica forma de dizer "à quanto tempo!" depararmo-nos com algo que já fomos, e que apesar de numa forma não activa, ainda somos. Eu arriscaria dizer que somos redundantes. Buscamos sempre a mesma coisa, ainda que por caminhos diferentes em diferentes épocas.
Não me vou perder a discorrer em linhas o deprimente e aborrecido que é ter o nós, o futuro, passado e presente, às costas. Vou gastar apenas uma frase: não é triste ter de escolher por um nós, em detrimento de um outro, que no fundo busca a mesma coisa?
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Costumes
foto daqui
Uma pessoa acostuma-se. Acostuma-se a tudo. Acostuma-se à vida, às rotinas, às pessoas. Acostuma-se de tal forma, que todos os "costumes" a que estamos acostumados se parecem repetir em qualquer sítio que estejamos. A vida é feita de padrões. Talvez não, mas os acostumados ser a coisas semelhantes acham que sim.
Não sei de que vale construir uma rotina. É um vício evitável, que apesar do desejável aproveitamento dos tempos mortos, nos rouba tempo, passando este mais depressa. Afinal de contas, não precisamos de tanto tempo para compreendermos e recebermos as coisas novas. São tudo padrões. Tudo costumes.
Não sei de que vale construir uma rotina. É um vício evitável, que apesar do desejável aproveitamento dos tempos mortos, nos rouba tempo, passando este mais depressa. Afinal de contas, não precisamos de tanto tempo para compreendermos e recebermos as coisas novas. São tudo padrões. Tudo costumes.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Esta merda é pessoal
Isto de viver é aborrecido. Ou nem por isso. É mais sacanagem, brincadeira que não cabe a todos. Digo eu. Não diz ninguém. Silêncio filho da mãe. Não sei que tenho contra o silêncio ou contra o que não sucede (talvez não tenha nada), mas neste momento apetece-me acontecer, sei lá, talvez sem querer. Ninguém diz nada, e continuamos perdidos, escondidos, assustados.
Gosto das coisas que acontecem sem querer. Todos esses planos, esses génios filhos do trabalho são um fiasco, uma mera aproximação do homem ao superior. Gosto de fluência, do acaso e do genial. Assim como gosto da miserabilidade que o assombra. Por vezes também gostava de ser um assombrado, um desses poucos, miseráveis maiores. É pura brincadeira, pura sacanagem. Aquilo custa, e não sou homem de custos, sou poupadinho, nos esforços e pagamentos. É cair por acaso, e por acaso cair no céu. Cair eternamente no vazio, no que não nos pertence. Porque nada pertence aos miseráveis: são superiores a tudo, nada prende o suficiente. Eu prefiro ter chão debaixo dos pés.
Pessoalmente as pessoas pensam. Pessoalmente as pessoas são. Pessoalmente as pessoas pessoam, e fazem por pessoar. Não sei se jamais pessoei acompanhado... E também não sei se já pessoei sozinho, enfim... Há pessoas que têm um terrível problema em serem elas próprias. Talvez porque não sejam. Talvez sejam demasiada coisa. Ou simplesmente estejam demasiado ocupadas para serem elas próprias.
terça-feira, 8 de junho de 2010
O sentido da vida: trabalho para filosofia
quadro de René Mgritte, Homesickness
Curiosa realidade a existência. Inexplicável talvez. Por vezes imagino um mundo lógico, e nele apenas uma coisa é patente: o nada. Tudo o que não seja nada é algo complexo e muito pouco lógico, que provavelmente não deveria existir (só o nada pode existir: curiosa e fortuita negação). Curiosa a condição humana, que, por estar condenada a um início e um final, estranha o eterno e o etéreo, não o concebendo de outra forma que não a do nada.
O sentido da vida é bastante claro: a morte. Se a tomarmos por uma estrada e compreendermos que começa no nascimento e termina na morte, vemo-lo claramente. O que há antes e depois da vida? Acredito seriamente que é a inexistência. Acredito seriamente que o sentido da vida é a inexistência. A vida tem como finalidade a inexistência.
Maldita sorte que nos põe no rumo de algo que não desejamos. Nem sempre queremos existir, mas tememos com todas as forças que temos a inexistência. Por isso surgiram os Deuses e as religiões, os livros e a arte: para ouvirmos uma não verdade (que não é necessariamente mentira) e para nos fecharmos num admirável novo mundo. E ainda bem que surgiram.
Tudo depende da perspectiva através da qual vemos o que quer que seja. Eu acho que o facto de o sentido da vida ser a inexistência é extremamente libertador. Como poderemos nós falhar? É impossível em teoria (não digo que o seja na prática porque não é possível provar tal coisa) um ser humano não chegar à inexistência. Isto significa muito simplesmente que ao nascermos já garantimos o objectivo da nossa existência. Que é que isto significa? Liberdade! Podemos ser o que quisermos, não temos de fazer absolutamente nada. Tudo o que temos de fazer é morrer um dia, e isso está-nos à partida garantido! Temos essa liberdade, e a liberdade acaba por ser o nosso sentido de vida: temos de ser livres, o quanto quisermos!
O nosso destino está traçado, mas não o itinerário… E eu vejo nisso a maior bênção de todas: sabemos como é o final, mas o resto está inteiramente por nossa responsabilidade. Temos limitações físicas e psicológicas? Temos, mas temos também imensos espaços vazios em nós que podemos preencher, ou deixar vazios, como muito bem entendermos. Gosto também de pensar na inexistência como a liberdade total, gosto de pensar que a inexistência, pouco mais é que uma existência sem limites, mais etérea, mais perfeita, e que por isso, quando morrermos vamos entrar numa outra dimensão, quando nos desprendermos do corpo, da alma, da mente, de tudo: a dimensão do nada, a dimensão do lógico.
Não tenho medo da inexistência, é ela que nos dá um motivo para existir: sermos livres (temos de estar preparados para quando passarmos a existir sob a forma de nada) para explorarmos todos os mundos possíveis, impossíveis, lógicos ou absurdos. A inexistência que um dia teremos (ou seremos?), dá-nos um motivo para sermos humanos.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Actor das causas diárias
Eu, enquanto ser humano, devo dizer que sou susceptível à sociedade à minha volta. Não me deixo influenciar directamente, mas tenho tendência em representar o que sou. Forçar movimentos, forçar discursos, etc. Enquanto isto me sucede, vou-me apercebendo de que me vou tornando nessas representações, nessas personagens que crio e fecho num tempo determinado. Busco a naturalidade em tudo o que faço. Busco a liberdade. É isso que tento fazer sempre que faço, o que quer que seja. É nesta minha busca que me perco por entre quem sou, quem quero ser e quem quero mostrar ser.
Sou o quê afinal? Responde-me só a isso... Sou quem sou? Quem quero ser? Ou o que mostro ser? Talvez a ponte de tédio que vai de mim para o outro ... Perco-me por entre os mares da representação, da essência e do sonho. Será assim tão difícil ser natural? Serei natural quando tento mostrar algo que não sou, mas que afinal talvez seja? Pão com chouriço e talvez seja, porque toda a gente assim. Eu, tu e o outro, por trás daquela fotografia, olhando o avô que chorava. Ninguém percebeu, mas naquele momento ele foi natural, e quis mostrar que o era. Actor das causas diárias, representação esquemática de um homem perdido na Terra.
Sou o quê afinal? Responde-me só a isso... Sou quem sou? Quem quero ser? Ou o que mostro ser? Talvez a ponte de tédio que vai de mim para o outro ... Perco-me por entre os mares da representação, da essência e do sonho. Será assim tão difícil ser natural? Serei natural quando tento mostrar algo que não sou, mas que afinal talvez seja? Pão com chouriço e talvez seja, porque toda a gente assim. Eu, tu e o outro, por trás daquela fotografia, olhando o avô que chorava. Ninguém percebeu, mas naquele momento ele foi natural, e quis mostrar que o era. Actor das causas diárias, representação esquemática de um homem perdido na Terra.
é como quem diz:
Mário de Sá Carneiro,
reflexão
domingo, 18 de abril de 2010
"Nada é permanente, excepto a mudança"
Cito acima Heráclito. Tudo vai mudando. Talvez por isso, a mesma coisa, em dois momentos diferentes, separados por um pequeno intervalo de tempo, pareça duas coisas completamente diferentes. Porque a mudança não é consciente do que faz (com certeza não o é, caso contrário, não seria, por vezes tão radical) ela é imprevisível. E por vezes quando olhamos para trás ficamos embasbacados, cegos de "wow" e curiosos: como é que as coisas vieram aqui parar? Provavelmente foi um segundo que olhamos para o lado, e não vimos a mudança a trabalhar.
Eu gosto de mudança. Tenho medo, mas gosto bastante dela. No entanto, quando conheço o fruto dessa mesma mudança reajo com precaução. Por exemplo quando me encontro com alguém que já não via há muito tempo não sei como reagir. Qual terá sido a intensidade dessa mudança? Provavelmente isto acontece a muita gente. Parece-me ser natural. Será que esse algo mudou na sua essência? Talvez sim, talvez não. A única coisa previsível em relação à mudança é a sua perdurabilidade.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Um pedaço de passado

Por vezes amamos alguma coisa. Uma pessoa, uma música, um filme, um álbum. Por vezes, quando o amor é longo, e surgem novos elementos pelo caminho, ficamos em dúvida. Será que afinal aquilo é amor? Talvez não fosse, foi um desejo de novidade... Talvez fosse, talvez seja, mas pode não ser.
Tinha vindo a questionar-me: será que gosto mesmo do álbum do Manel Cruz? Tinha uma dúvida paralela, com outro elemento, mas por motivos pessoais prefiro enunciar a dúvida relativa ao álbum do Manel. Como sabem, talvez não, foi uma música dele que deu nome ao blog, ouvi durante muito tempo esse álbum repetidamente. Também no outro caso sucedeu o mesmo. De um momento para o outro deixei de o ouvir: tinha de ouvir outras coisas...
Hoje questionei-me: será que não estou preso ao passado? Algo que foi importante e já não o é? Tanto são falsas, inúteis e mesquinhas as minhas dúvidas, que bastou um olhar, meio, para ter a certeza de tudo. Tudo é verdadeiro. Tudo sempre foi. Tanto não é que neste momento estou a ouvir Manel Cruz.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Em Segurança
de Jonathan Leder
Muitos são os momentos em que nos ausentamos. Fugimos de ser, refugiamo-nos nalgo que tomamos como certo. Um silêncio, um vazio, um espaço, um ruído... Esse algo é nosso, e ninguém no-lo pode roubar. Donos e senhores do nosso destino, escolhemos não ser, senão algo, uma caneta que se demora lenta e bela, uma música que dança por entre o vento, um amor de dois segundos, uma existência de nenhum... Escondidos, refugiados, em segurança.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Sem sentido?
É curiosa a forma como todos buscamos um sentido. Uns esperam-no. Outros procuram-no. Outros ignoram que o procuram, durante imenso tempo. Duvido que alguém alguma vez o encontre. Como o pote de ouro no fim do arco-íris, os gambozinos, e os bichos no armário, duvido que tal coisa exista. Não acredito que haja sentido, apenas uma busca, que vale por si. Pobres homens que o procuram!
Mas talvez eu esteja enganado. Afinal de contas, a minha sapiência contar-se-ia pelos dedos da mão, se fosse quantificável, e as minhas dúvidas, essas, escassas como areia num deserto. Não vale a pena discorrer, falar, discutir... Isto é algo tão pessoal que até conselhos podem ser considerados como intromissões. A direcção que seguimos é algo importantíssimo, e só a nós nos cabe defini-lo. Se não houver sentido que seja criado um! É o que fazemos... Mas será esse sentido, um verdadeiro sentido? Talvez sim, talvez não... Neste jogo não interessa como, só interessa atravessar a meta. Podemos fazê-lo devagar, depressa, de costas, a saltar ao pé coxinho, ou em contra-mão... O que interessa é atravessar essa linha imaginária. Nesse sentido, não há um sentido para continuarmos, temos de ser nós a criá-lo.
O Sol é um astro que através de reacções nucleares liberta enormes quantidades de radiação de várias frequências e, portanto, várias características diferentes. Ele não sabe porque o faz, nem estou certo que o queira fazer... Como ele temos de seguir. E não será melhor assim? Sem sentido? Sem um motivo para fazer o que quer que seja? Só a nossa vontade está em jogo, e assim vivemos sem sentido, ao sabor do vento, talvez bem melhor do que com falsos sentidos criados num qualquer centro de incubação de filosofias de vida de bolso. Sem sentido. Ao sabor do vento. Só é preocupante quando a vontade escassa, as dúvidas crescem, e o vento não sopra.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
O Sacana do Duende
Nem sei se vivo. Talvez não eu, talvez um pequeno duende dentro de mim. Talvez eu não pessoa, só uma realidade alternativa cujas vontades e sentidos são controlados por outros. Talvez o pequeno duende (será verde? só imagino duendes verdes... ou vestidos de verde?) seja maldoso e goste de ver um ser enorme como eu, sofrer, ser humilhado, diminuído a um pedaço de músculos e ossos. Talvez não se aperceba que esta realidade virtual existe por si só (não sei se realmente existo, é possível, mas quem saberá?) e goste de brincar inocentemente (o duende verde sabe, foi ele que me criou).
Milhares, milhões falaram de vontade, livre arbítrio, etc e tal e volta ao mesmo (o duende verde, silêncio), ou talvez só nove ou dez, não sei. Nem sei se vivo, como posso saber se mais alguém existe? Se calhar nunca ninguém falou de liberdade, é tudo imaginação minha (correcção, do duende) e liberdade um desejo secreto minha (não do duende). Provavelmente não existe liberdade: vivemos segundo um complexo processo de sorte, química e física (o sacana do duende, lá em cima, nos comandos).
E todos os outros? Não livres como nós? (será que vários duendes? ou um só, a controlar todos?).
Tantas dúvidas, e tão inúteis. Continuarei, continuaremos sempre a seguir em frente. (e tu aí em cima, estou de olho em ti!!!)
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
O Sentido trágico da vida
"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têem medo da luz."
Platão"O mundo é uma comédia para os que pensam, e uma tragédia para os que sentem."
Horace Walpole
"Morrer é um ato tão natural como nascer - a grande tragédia é viver."
Francisco de Bastos Cordeiro
"A tragédia da velhice não é ser idoso, mas jovem."
Oscar Wilde
O conceito de tragédia não é exacto ou universal. É pessoal, muito pessoal. Notem-se as diferentes interpretações de tragédia. Para mim, antes de ir parar ao Wikiquote enquanto fazia um trabalho sobre a Tragédia Clássica, era simplesmente algo muito mau. Algo demasiado mau. Esse é talvez o único elemento comum a todas as interpretações individuais de tragédia.
A vida é muitas vezes comparada, justamente, a uma estrada. Penso que essa comparação é merecida, no sentido em que é ela é a nossa linha de viagem até algo. Eu gostaria de realçar a frequência com que esse sentido aponta a tragédia, apesar de a verdadeira tragédia ser tão diferente de homem para homem. Não direi que a vida ruma sempre numa direcção trágica, mas é inegável que caminha nessa direcção com muita frequência.
Mas o que e tragédia para mim? Pode não o ser para mais ninguém... Temos medo que as tragédias nos aconteçam, temos particular medo que A tragédia nos aconteça. E é sempre essa a que tem mais tendência para acontecer. Pelo menos acho que sim. É o medo... ("Quem sabe o medo é minha cruz..."Manel Cruz ) Tenho particularmente medo de ter medo... Parece que quando se tem medo as coisas acontecem mais facilmente. (parece...). Por isso tenho muito medo de muita coisa. Por isso acho que a vida tem um sentido trágico. Afinal de contas, quem não tem os seus medos? Mas isto tudo, é só o que eu penso. É só, mas às vezes parece que tanto.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Evolução
A Evolução estará eternamente presente em tudo. Também o Homem evoluiu, evolui e evoluirá. O Homem é um animal, e está por isso sujeito às mesmas leis que outro qualquer. Segundo Lamarck cada espécimen sofria alterações individuais de acordo com as suas necessidades, passando esses caracteres à sua descendência. Segundo ele, as espécies evoluíam no sentido da perfeição. Darwin, mais aceite que Lamarck, sugeriu que dentro de uma população de indivíduos da mesma espécie, todos tinham características diferentes, e por isso, só os melhor adaptados sobreviveriam, passando essas características à descendência. Darwin também fala algures da evolução como estrada para a perfeição.
Tal como o Homem, também a Sociedade evoluiu, evolui e evoluirá. Creio, no entanto, que a evolução a que esta está sujeita não tende para a perfeição, por isso das duas uma: ou a sociedade não se rege pelas mesmas leis que os animais, ou estas contém erros, e toda a evolução é muito mais aleatória do que parece ser. Não digo com isto que a evolução da sociedade é aleatória, porque a palavra não descreverá na perfeição aquilo que pretendo demonstrar... A sociedade está talvez com menos defeitos que há uns anos valentes atrás, mas está muito mais imperfeita como todo que é. Note-se que não falo de política, nem de causas maiores, mas de coisas ditas "menores" que enchem todos os dias e que com certeza têm uma influência enorme nas causas maiores.
"Vejam o que nos está a acontecer - esta especialização. A despersonalização está a tirar todo o significado humano à nossa vida quotidiana. Um homem costumava orgulhar-se da forma como conduzia. Agora um carro guia-se sozinho. Uma mãe costumava orgulhar-se dos seus bolos. Agora eles fazem-se sozinhos. Um rapaz costumava orgulhar-se das coisas que inventava para brincar. Agora está soterrado em brinquedos feitos em fábricas. É triste , não é?" dizia Tati (Post em O Homem Que Sabia Demasiado)
Só o facto de estar aqui a escrever já passa muito dessa imperfeição: a virtualização desta mensagem e a consequente banalização. Parece-me que as coisas começam a perder magia, valor. Parece-me que toda a evolução que a Sociedade sofreu nos deixou num sítio mais pobre, e sem graça: mais fácil de viver.
Tal como o Homem, também a Sociedade evoluiu, evolui e evoluirá. Creio, no entanto, que a evolução a que esta está sujeita não tende para a perfeição, por isso das duas uma: ou a sociedade não se rege pelas mesmas leis que os animais, ou estas contém erros, e toda a evolução é muito mais aleatória do que parece ser. Não digo com isto que a evolução da sociedade é aleatória, porque a palavra não descreverá na perfeição aquilo que pretendo demonstrar... A sociedade está talvez com menos defeitos que há uns anos valentes atrás, mas está muito mais imperfeita como todo que é. Note-se que não falo de política, nem de causas maiores, mas de coisas ditas "menores" que enchem todos os dias e que com certeza têm uma influência enorme nas causas maiores.
"Vejam o que nos está a acontecer - esta especialização. A despersonalização está a tirar todo o significado humano à nossa vida quotidiana. Um homem costumava orgulhar-se da forma como conduzia. Agora um carro guia-se sozinho. Uma mãe costumava orgulhar-se dos seus bolos. Agora eles fazem-se sozinhos. Um rapaz costumava orgulhar-se das coisas que inventava para brincar. Agora está soterrado em brinquedos feitos em fábricas. É triste , não é?" dizia Tati (Post em O Homem Que Sabia Demasiado)
Só o facto de estar aqui a escrever já passa muito dessa imperfeição: a virtualização desta mensagem e a consequente banalização. Parece-me que as coisas começam a perder magia, valor. Parece-me que toda a evolução que a Sociedade sofreu nos deixou num sítio mais pobre, e sem graça: mais fácil de viver.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Com defeito
Tem um dente torto? Meta um aparelho. Tem um rasgo, por mais pequeno que seja, na camisola? Cosa-a. Tem o cabelo despenteado? Penteie-o. etc. Parece que hoje tudo tem de estar perfeito. Se calhar já era assim antes, mas antes não vivi, ou não me lembro.
O ser humano deve caminhar no sentido da perfeição, tem de querer ser melhor do que é, mas não demasiado. A raça e o indivíduo. Todos os homens. Eu tenho de fazer isso não sei bem porquê, mas tenho. Chamem-me conformista, chamem-me incoerente, mas eu acho que uma pessoa não tem de se melhorar constantemente. Acho que isso é uma decisão nossa, de cada um dos seres individualmente. Posso até me querer melhorar, e melhoro (tento pelo menos), mas não quero que me obriguem a fazê-lo. Em coisas mais importantes para mim, como alma, capacidade intelectual e da mente, faço-o, em coisas que não são muito importantes para mim, por mais que me peçam, tento não fazer.
A única hipótese que nós temos de nos tornarmos perfeitos, é eliminar os defeitos. A perfeição, tal como é entendida e conhecida por grande parte de nós, é algo idílico, inatingível, para outros é o equilíbrio, de onde se destaca o equilíbrio da vida. Eu encaixo-me no segundo grupo. Por isso acho que a coisa perfeição é aquela que tem vários defeitos (por vezes muitos mesmos), para funcionar na plenitude como deve. Aliás, que piada tem algo sem defeito? Por isso me declaro com defeito.
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