sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"if a body catch a body coming through the rye"



"I am a kind of paranoid in reverse. I suspect people of plotting to make me happy."
- J.D. Salinger


Recentemente "celebraram-se" os 30 anos passados sem John Lennon. Assassinado a 8 de Dezembro de 1980, em frente ao edifício Dakota, por um fã que, horas antes, havia visto o seu exemplar do primeiro álbum de Lennon num espaço de cinco anos, Double Fantasy, autografado, no mesmo sítio em que Lennon agonizaria e perderia 80% do seu sangue. Mark Chapman diz ter sido inspirado pelo livro The Catcher in the Rye ( À espera no centeio) de J.D. Salinger.

No 9

O livro de Salinger conta a história, na primeira pessoa, de Holden Caulfield. Holden vê-se expulso de Pencey, a última escola para que havia sido transferido. Decide esperar num hotel até que os pais recebam a carta a dar conta da sua expulsão. Nesta espera conhecemo-lo em pormenor, aprendemos que vê em cada pessoa falsidade estampada, ou, em vez disso, ignorância. Vemos a forma como, ainda assim, Holden convive com esses mesmos "phonies". Sentimos o desajusto de Holden no mundo. Naturalmente ele dá-se conta da sua falsidade, dos defeitos que vê nos outros, ainda assim, justifica-a. A obra não acaba sem ele reconhecer a falta que sente de todos os hipócritas que conheceu.

No 9

Do ponto de vista formal, The Catcher in the Rye é fluído, adaptado à linguagem de um jovem, através da, por exemplo, adopção do calão. De uma ponta da obra à outra parece que estamos dentro da cabeça de Holden. Compreendem-se todas as suas acções, todos os seus pensamentos, ainda que incoerentes ou desajustados.

No 9

Enquanto que para alguns críticos esta obra constitui uma crítica aos jovens, ou pelo menos um retrato da juventude que não conhece o seu lugar no mundo, par mim é mais que isso, é antes um exorcismo de Salinger, através do qual, liberta a sua opinião sobre o mundo, sobre as pessoas, o quanto são falsas, o quanto é falsa toda a estrutura da sociedade da época (sobrando para a actualidade). Interpreto isto do isolamento no qual Salinger se deixou cair depois de escrito este livro, resposta mais perfeita para o problema de Caulfield seria impossível.

No 9

É pena que Chapman não tenha interpretado este romance da mesma forma que eu. Na sua loucura, identificou-se com a obra, relendo-a até ao esgotamento da escassa sanidade. Vendo a hipocrisia espalhada na cara do seu ídolo, decidiu que o melhor era acabar com ela. Acabou com um dos maiores músicos da história, ainda que dele não se esperasse muita mais música. Acabou com um símbolo da paz que, hipocritamente ou não, ainda podia fazer muita coisa pelo mundo, e pelos seus filhos.

No 9

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