sábado, 4 de julho de 2009

O insustentável peso da solidão





Milan Kundera escreveu em tempos A insustentável leveza do ser. Com muita pena minha, ainda não li essa obra-prima, mas tenciono, depois de acabar de ler o belíssimo A vida não é Aqui. Não sei, por isso, o significado deste título. Eu consigo retirar, no entanto, uma interpretação deste título, que não sei se está de acordo com a obra de Kundera, mas também não tem esse objectivo.

O ser é algo simples. Não tem explicação, nem motivo. É algo imensamente confuso. É algo que não conseguimos explicar ou entender. A existência é algo sobre o qual podemos supor diversas coisas, mas sobre a qual não podemos ter quaisquer certezas. É, por isso, insustentável para nós que a existência seja tão simples. Queremos a todo o custo tentar explicá-la. «Eu sou», «Eu existo»: o que é isto? Eu penso que a existência é algo extremamente simples. Simplesmente existe-se. Todo este Universo existe simplesmente, sem explicação para nós. É insustentável para nós que tudo isto exista sem motivo, ou que pelo menos, não o consiguemos explicar. Ser é bem mais simples do que parece, mas nós tentamos a todo o custo complicar essa simplicidade.

Quando estamos sozinhos nada nos separa da mais complexa face da reflexão, e por isso reflectimos sobre as mais diversas coisas, nos mais diversos níveis de intensidade. Pensamos em todas as nossas responsabilidades, todas os nossos direitos, todas as nossas acções, sentimentos, desejos. Temos um trabalho reflexivo tão intenso, como o brilho do Sol às 12 horas do dia mais quente do ano. Temos de digerir todas essas novas dimensões dos nossos pensamentos sozinhos, vulneráveis a todas os perigos que eles trazem. Quando estamos sozinhos, perdemos a simplicidade do nosso ser. E essa leve existência traz-nos, quando entramos nas mais profundas dimensões da reflexão, um peso insustentável.

Por isso, se vivêssemos menos tempo sozinhos, e mais tempo acompanhado por algo ou alguém, seríamos mais felizes, mais saudáveis, mais leves.

Não me entendam mal: não estou a criticar a solidão, estou simplesmente a dizer que ela é inimiga da felicidade. Mas é importantíssima para o desenvolvimento do intelecto e do nosso próprio ser. E assim, nós, estando sozinhos, roubamos ao ser a sua leveza. Queremos ser inteligentes, astutos, sábios. Queremos explicar a existência, e só através da solidão o podemos fazer. Fugimos à beleza, à simplicidade e à insustentável leveza da vida.

(repito que não li o livro em questão, apenas usei o seu título como base para escrever este texto)

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